Monday, June 28, 2004
Conduzindo a pista da Maldita.
Trocentas matérias na Folha:
- N*E*R*D
- Curitiba Pop Festival 2003
- 50 blogs
- Rock gaúcho
- Douglas Adams
- Renato Russo
- Copyleft e sample
- Four Tet
- Coletivos
- Solitude 2003
- Gerador Zero
- Grenade
- D12
- O Código Da Vinci
- Fotógrafas Supersexies
- Philip K. Dick
- De Leve
- Beastie Boys
- Zémaria e Tom Bloch
- Indie Hip Hop 2003
- Videogame bate cinema
- Nação Zumbi
- Steve Johnson
- MP3, pirataria, P2P...
- J-Horror
- Hurtmold
- Alicia Keys
- Mike Patton (também)
- Tony Allen
- Gabriel Muzak
- Mombojó (também)
- Humaitá pra Peixe 2004
- VJs
- Once Upon Atari (também)
- DJ Marlboro (também)
- Rec Beat 2003
Obsessões pessoais recorrentes ou mero zeitgeist?
Sunday, June 27, 2004
Tuesday, July 09, 2002
Essa coluna eu fiz pra Rockpress, mas como eu sou bom de começar e ruim de terminar, só rolaram duas...
Mente suja
Since I Left You - The Avalanches
Há uma cara que a Austrália não nos dá nada de decente. Ponha nos dedos: Nick Cave surgiu na mesma época em que a legião de bandas que até hoje faz a conexão Florianópolis, tempos do auge do pós-punk praiano do INXS, do Divinyls e do Midnight Oil e do mandato porrada do AC/DC entre os gigantes do rock. De lá pra cá, o que mais? Um Dirty Three não compensa Natalie Imbruglia e o Silverchair, mas o mais entristecedor era o cenário inóspito que o país do Crocodilo Dundee (só de sacanagem) apresentava ao cenário pop mundial.
Felizmente, isso é passado. Há mais de sete anos encubando o que se tornou sua estréia mundial, o sexteto Avalanches vem compensar o vazio criativo down under. Começaram como uma banda tradicional, com guitarras, baixo e bateria, mas a entrada de dois DJs no coletivo acabou mudando os objetivos originais do grupo. Em pouco tempo, estavam os seis - Darren Seltmann, Dexter Fabay, James de La Cruz, Robbie Chater, Gordon McQuilten e Tony DiBlasi - brincando de colagens sonoras com samplers, vitrolas e misturadores de som.
O resultado é o fantástico Since I Left You, acidente inevitável que vê toda a história do som gravado ruir num desmoronamento de clichês, rótulos e classificações. Criado a partir de coleções inteiras de vinis velhos, o primeiro disco do grupo vem confirmar os Avalanches como uma das bandas mais legais e promissoras do ano 2001. Amontoando trechos tão improváveis quanto Bob Dylan, discos falados, gravações étnicas e black music do fundo do baú, o disco remonta a clássicos da sampladelia, como Paul’s Boutique, dos Beastie Boys, e Into the Dragon, do Bomb the Bass.
Mas ainda é pouco para se ter uma idéia mais clara do estrago dos Avalanches. Mesmo porque ambos álbuns são caracterizados tanto pelo excesso de referências quanto pelo leque de ambientações no mesmo disco. Since I Left You não muda tanto de humor. Apesar de buscar dados musicais em fontes nada convencionais, o álbum tem uma unidade sonora, um fluxo astral triste mas esperançoso, recuperando, na pista de dança, o sentido da vida depois de um relacionamento frustrado. Para todos os efeitos, é um disco de soul.
Ao mesmo tempo, não é um disco de nada. Chuck D, que excursionou com o grupo, deu seu carimbo de aprovado endossando que, em certos momentos, sentia-se em Nova York, fazendo com que isso avalizasse o caráter universal do hip hop. Fatboy Slim, por sua vez, prontificou-se a remixá-los, mesmo confirmando que não saberia o que fazer com as músicas do grupo. Em certos momentos, o disco exala aquela melancolia de discoteca, aumentando os graves para a dança, escapista, aplacar a lembrança do tédio do dia-a-dia. Em outros, recorre à ensolarada inocência dos Beach Boys, fazendo conexões com os High Llamas de Sean O’Hagan e com o japonês Keygo “Cornelius” Oyamada. Madonna surge esfuziante logo na segunda faixa, com a linha de baixo de Holiday recriada exemplarmente. Mais à frente, a sirene característica do Bomb Squad é substituída por um relincho de cavalo.
E por aí vai. Sem se ater a rótulos, os Avalanches criaram um dos discos mais espetaculares do ano e, certamente, um dos padrões a serem seguidos pela década que está começando. Enquanto tá todo mundo esperando o novo Nirvana ou os novos Sex Pistols, talvez estejamos esquecendo de um parâmetro óbvio na cultura pop: o novo Sgt. Pepper’s. Não que Since I Left You o seja (ainda é cedo para medir o espectro de sua influência), mas ele claramente nos coloca frente à possibilidade de uma nova psicodelia. Comemoremos, pois.
Nem sei quem me pediu essa coluna, mas não tocou mais no assunto e virou outtake.
Teoria Prática
Tudo Vai Mudar/ Nada Vai Mudar
Maldito 2000. Três zeros implacáveis, consecutivos nos lembram um odômetro completando toda sua volta, bônus na máquina de fliperama, relógio digital depois do blecaute. Eles três parecem que piscam ("0:00!", "0:00!"), lembrando ao nosso inconsciente coletivo o poder quase mágico que a numerologia (a aritmética, não a mística) provoca em nossa imaginação. Nos três zeros deste 2000 despejamos expectativas e referências que nos nortearam enquanto ele não chegava. 2000 era sinônimo de um futuro utópico, da automaticidade da esperança, apertar um botão e - como o tal passe de mágica - tudo funciona, nada mais fica pendente.
Mas tá aí o tal ano 2000, quase chegando no fim e nada aconteceu. Ou melhor: tudo continuou na mesma. Mas o sentimento de apreensão continuaria no ar e assim continua até o minuto final do ano, até 2001 chegar e quebrar a maldição dos três zeros (lançando outra, a de Kubrick - mas isso é outra história). Mas o fato de não ter acontecido nada fora das normas (como achávamos que deveria ter acontecido) continua sendo um fato e estamos vivendo os últimos dias de um vazio existencial sem culpa. Estamos, à medida em que o ano termina, refletindo e pensando sobre nossa existência, cada um à sua maneira e basicamente devido à imagem futurista e renovadora que o ano tinha no inconsciente. E este é o acontecimento de 2000.
Discos, como as mais populares obras de arte de nosso tempo, tendem a refletir esta sensação de abandono destacada da melancolia que os franceses existencialistas imprimiram sobre a condição humana. Cada um dos discos lançado este ano sofreu tal efeito, em maior ou menor escala. O álbum que melhor define o ano é sem dúvida o disco do Radiohead, que não funciona caso não venha acompanhado da perspectiva histórica. Sem o papel de “maior banda de rock do ano 2000”, Kid A não seria apenas um OK Computer do B, um lado escuro do andróide paranóico com algumas reflexões eletrônicas instrumentais finalmente emergindo do underground através de uma banda de rock. Caso a expectativa em torno do disco não fosse tão grande, o Radiohead certamente não faria um disco tão pretensiosamente enigmático.
O clima de desconsolo atravessa todos os outros discos. Até na raiva boca-suja de Eminem é possível ouvirmos um choro desesperado de quem descobre que não há sentido na vida. Neste sentido, podemos perceber o mesmo sentimento transformado em conotação política (em XTRMNTR, do Primal Scream, que apela para gêneros musicais diferentes como rock garageiro de Detroit, house alemã e space jazz; e Community Music, do Asian Dub Foundation), dilema matrimonial (And Then Nothing Turned Itself Inside-Out, do Yo La Tengo), desilusão individual (Nixon, do Lambchop, e Bloodflowers, do Cure), simples interrogação (as Virgin Suicides, do Air), meditação pessoal (The Hour of Bewilderbeast, do Badly Drawn Boy, Fold Your Hands Child You Walk Like a Peasant, do Belle & Sebastian, Silver & Gold, do Neil Young, e MACHINA/The Machines of God, dos Smashing Pumpkins), preocupação existencial (The Sophtware Slump, do Grandaddy), tensão instrumental (Mirror Conspiracy, do Thievery Corporation), o que for. Tem mais disco, é só lembrar e tentar fazer a associação.
No Brasil, onde o canto da esperança e do desespero já faz parte do dia-a-dia da população (basta ouvir Legião Urbana, por exemplo), 2000 serviu apenas como uma afirmação do que já se sabia, uma confirmação em escala mundial. A saída para equilibrar esta sensação de desespero foi encontrada no caminho que sem dúvida é um dos principais fatores de identidade nacional, a celebração. Tanto a rebeldia xiita de Por Pouco (do Mundo Livre S/A) e o niilismo político de Rádio S.Amb.A. (da Nação Zumbi), o cinismo ácido da estréia dos Autoramas e o ímpeto confessional da estréia da Relespública, a declaração de princípios que são Maquinarama (do Skank) e A Invasão do Sagaz Homem-Fumaça (do Planet Hemp)... O Mopho explicita o impasse ao cantar músicas chamadas Nada Vai Mudar e Tudo Vai Mudar, ambas festivas, em seu disco de estréia. O ano do rock foi representado por dois discos ao vivo com a chancela da MTV (Raimundos e Ira!), enquanto a sábia Rita Lee, ri de toda indefinição com seu 3001. Até a banda mais sem personalidade dos últimos tempos, o Jota Quest, pode ser encaixado nesta tendência, uma vez que seu disco (qualquer um) limita-se a festejar a animação, independente do que esteja sendo cantado (quem se importa?). A celebração da diferença frente a inevitabilidade do acaso (ou do destino, como queira) deu a tônica nos discos do ano por aqui. A música nas entrelinhas do ano foi Apesar de Você, do Chico Buarque - que, por sinal, não deu as caras no ano.
Nisto o Brasil já saiu na frente, anos sob ditaduras e crises econômicas nos ensinaram a fazer as coisas por conta própria, sem esperar ajuda dos outros. É isto o que o mundo vai aprender com o nada deste 2000 que está acabando: para que as coisas mudem, é preciso que você mude. Aí sim.
Resenhinha do Buena Vista Social Club (o disco) pro Caderno C, do Correio...
Tão intrigante quanto o sucesso de crítica da trilha de Buena Vista Social Club nos Estados Unidos é a saraivada de aplausos que o mesmo disco recebeu no Brasil. Não que estes senhores e senhoras não mereçam este excesso de palmas, mas a música cubana não é nenhuma estranha para a música brasileira.
Desde os anos 70 que as culturas brasileira e cubanas se dão muito bem e artistas como Irakere, Paquito D’Rivera, Bebo (pai) e Chuco (filho) Valdes, Arturo Sandoval, Pablo Milanes, Potato Valdez, são conhecidos nossos por aqui. Nossa MPB sempre gostou de Cuba e as raízes esquerdistas da música brasileira nos anos 70 tornaram a ilha de Fidel uma espécie de paraíso socialista, utopia política de toda uma geração, desmitificado pelo escritor Fernando Moraes em seu primeiro livro, A Ilha.
Os americanos se espantarem com a música cubana era até algo de se esperar. Desde que Tio Sam rompeu relações comerciais com aquele país, nada que viesse de lá conseguia entrar nos EUA de forma legal. Por isso, quando o guitarrista americano Ry Cooder encontrou aquele universo intacto de balanço, melodia e sentimento, mal conseguiu acreditar. Era como se um novo blues fosse encontrado, um idioma perdido fosse finalmente traduzido.
Acontece que o Buena Vista Social Club é como se os americanos descobrissem Cartola, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Nelson do Cavaquinho, todos de uma só vez. Apesar de nós não conhecermos os pais da música cubana que ouvia-se nos anos 70 (revelados por Cooder ao lado do diretor Wim Wenders), aquela musicalidade não é nenhuma estranha aos nossos ouvidos. Seria mais natural que a recebêssemos como um velho tio que não vemos há tempos do que como a palavra da salvação musical (como os americanos a receberam, o que é natural devido ao bloqueio citado acima).
Mas como parte da imprensa musical brasileira é colonizada, apenas ouvimos balbuciantes repetições do que os americanos haviam escrito. Bobagem. Preste atenção nos boleros e guajiras, na doce influência do jazz, na profundidade sentimental da voz de artistas como Compay Segundo, Rubens Gonzalez, Omara Portuondo, Eliades Ochoa e Ibrahim Ferrer e ouça o eco da música brasileira ao fundo. E descubra sua própria latinidade dormindo em algum ponto do seu subconsciente. Só não vale chorar.
Essa é a primeira Tudo ou Nada...
TUDO OU NADA
“The Night Was Moist”
Sempre que eu travo antes de escrever qualquer texto, essa frase me vêm à cabeça. O pior é que o motivo vem de um filme besta, Jogue a Mamãe do Trem (ou Por Favor, Matem Minha Mãe - sempre confundo os dois, eles são da mesma época, acho). Não lembro direito da história, mas o lance é que o Billy Crystal (acho, tô escrevendo tudo de cabeça) é um escritor que, por algum motivo, não consegue começar seu livro. Então a primeira coisa que ele digita é a frase acima (“moist” quer dizer “úmido” - nunca não saberia se não fosse esse filme). Martela-a mil vezes em várias folhas em branco, uma a uma amassada e atirada à lata de lixo. Se ele tivesse um computador, com certeza ela estaria na ponta do ctrl+v - do ctrl+z, na pior das hipóteses. Mas a frase não saía-lhe da cabeça e quando ele olhava para a folha em branco, ela pintava na cabeça de uma forma tão impositiva que ele acabava escrevendo-a.
Essa lembrança sempre volta quando eu me encontro na mesma situação. Provavelmente por ter identificado pela primeira vez um problema meu em relação à escrita, a frase não chega a ser escrita, mas é inevitável pensar nela sempre que vem a sensação de bloqueio. Mas ao mesmo tempo, ela aparece como um descarrego, um exorcismo em forma de palavras - uma espécie de “mizifi”, “serenity now” ou daqueles berrinhos que o Didi dava quando estranhava alguma coisa (quase sempre o sargento Pincel vestido de mulher). É pensar que a noite estava úmida e lembrar da máquina digitando bem de perto, carimbando letra por letra o papel (aí me vêm à cabeça o Snoopy, os Casos Especiais da Globo e O Iluminado, mas isso é outra história...). Pronto: posso começar.
Por isso, escolhi começar assim essa coluna que eu ainda não decidi se vai ser mensal, quinzenal ou semanal - vai depender da minha disposição. Já despejo o “the night was moist” no título e posso escrever sobre o que der na telha. Porque é mais ou menos esse o espírito daqui. Acho que é a única coisa que sei, por enquanto. Que tenho que preencher uma coluna sobre tudo que estiver a fim de falar - mesmo que não seja nada. Daí o nome da coluna, dah... Pensei em fazer uma coluna de notinhas, mas, sei lá, me pareceu meio picaresco ficar só com notinhas. Então toda coluna eu vou abrir com um texto maior (do tamanho desse aqui, que, como você está vendo, já está acabando), seguido das notinhas, rápidas “pensetas” (como diz o Tomate, aglutinando “pensata” com “punheta”). Resumindo, sou eu falando besteira, com meus parágrafos, traços e dois pontos...
***
Morreu outro mestre, Curtis Mayfield. Se você não conhece, pegue a coletânea The Very Best of Curtis Mayfield, da Rhino, e ouça só o que você estava perdendo...
***
Falando em Curtis, algumas músicas que eu não consigo parar de ouvir: Move on Up, do próprio Curtis; Bulletproof, do Breakbeat Era (“Electrify me from my heart...”, que sonzeira); It’s Just Begun, do Jimmy Castor Bunch; Everybody Needs a 303, do Fatboy Slim; e Mixed Bizness, do Beck (“turn it up now!”). Quando um baixo fisga a orelha é difícil largar.
***
Perseguições de carros. CIA. Tiroteios. Harry Dean Stanton. Alienígenas. “Pablo Picasso”. Drogas. Punks. Iggy Pop. Ladrões de carro. Teorias de conspiração. Tortura. Um policial que faz tricô. Lutas. Um banho de café. Os Circle Jerks como uma banda lounge. Repo Man é uma mistura de Arquivo X com Pulp Fiction naquele ritmo de filme bem anos 80, misturando as diferentes adrenalinas de Mad Max e Curtindo a Vida Adoidado. Uma bobagem - mas que filmão!
***
O Breakbeat Era é um discaço, mas não vale os quarenta contos que a Saraiva tá pedindo nele. Aliás, é um absurdo - tem disco naquela loja que custa cinqüenta paus! Um disco simples, americano! Da Missy Elliott! Sabe quando esse disco vai sair dali, né? Vale a pena então fuçar nas prateleiras de vídeo, uma vez que VHS sempre é uma fortuna no Brasil. Viagem? Nah, com o aumento do dólar os caras não compraram mais fitas de vídeo e deixaram as que estavam com o preço velho. E você sabe qual era o preço velho das fitas de vídeo? Trinta paus, o preço que estão cobrando em um CD simples. Então deixe de lado o novo CD e compre, sei lá, um The Who ao vivo ou um The Year that Punk Broke, um Best of Blondie ou um Oh No! It’s Devo! pelo mesmo preço...
***
...Mas se a sua condição financeira não permite que a porcentagem salarial destinada aos discos chegue a uma quantia tão absurda, dê um voto de confiança ao Lobão pelo menos pelo cara estar buscando uma alternativa à indústria fonográfica e compre o disco dele na banca. Custa 13,50 e é um disco legal. Na pior das hipóteses, ajuda o velho lobo a não passar aperto, o que é o fim da picada num país como o Brasil (deixar seus artistas entregues ao relento). E se ele pega um disco de ouro (como ouvi dizer) pode até rir por último.
***
Falando em disco de ouro, quem chegou lá foram os Los Hermanos. O pior não é isso: quem não suporta a banda mal pode pensar no que está por vir. Se você já não gosta do grupo por qualquer outro motivo (resistência besta, os caras são bons), se prepare para não ouvir outra música além de Anna Júlia até o carnaval, pelo menos. Até as bandas de axé incluíram a música no repertório e ela já é o hit do verão. E olha que o sol ainda nem abriu.
***
A melhor publicação do Brasil cabe na palma da sua mão. O Design de Bolso é uma revista em miniatura que tira o fôlego e incita a inveja do leitor a cada virada de páginas. Te fazem vira-lo de diversas maneiras para lê-lo e a fazer isto em qualquer local público pode fazer com que você pareça um maluco achando que está dirigindo um carro imaginário (em que o zine é o volante). Mas por trás de todos esses malabarismos textuais e montanhas-russa de design visual (é impressionante: é tão “modernex” feito a RayGun ou a The Face, só que é fácil de ler) está um marketing pessoal e profissional (por que distinguir uma coisa da outra, afinal de contas?) perfeito. Está na contracapa: “esta publicação não pode ser vendida”. A revista acaba funcionando como propaganda dos dois designers responsáveis pela pérola (que está em seu sétimo número, completando dois anos de existência), Elesbão e Haroldinho (codinomes de Cláudio Reston e José Bessa). Não perca seu tempo e peça um pra eles ddb@elesbaoeharoldinho.com . E depois conte pros seus amigos.
***
Mas vem aí uma alternativa legal para quem não suporta os Hermanos que são os Autoramas. Se os caras da Anna Júlia são pop demais pro seu francês, se renda ao rock pra dançar do novo grupo de Gabriel Little Quail, Simone Dash e Bacalhau Planet Hemp. Quem tá por dentro já ouviu. Em fevereiro é a vez do povão conhecer Stress, Depressão e Síndrome de Pânico, primeira coleção de canções do grupo no formato CD. Ao mesmo tempo, a gravadora independente goiana Monstro Discos lança uma bolachinha com duas faixas que não entram no CD oficial.
***
E já que a época é de renovação musical, por que a Sony não trabalha direito a Penélope? Ainda mais agora, com axé caindo e bandas de rock voltando às paradas. A vocalista da banda baiana, Érica, já é conhecida do grande público através do clipe de A Mais Pedida, dos Raimundos. O momento é perfeito para lançar a banda direito, colocando-os pra trabalhar seu pop açucarado com guitarras distorcidas em pleno verão. Um hit? Namorinho de Portão, de Tomzé, que o grupo gravou em sua estréia.
***
Uma amiga mandou perguntar e eu pergunto: por que a Trama não contrata a Nação Zumbi, já que o grupo que acompanhava Chico Science foi dispensado pela Sony no meio do ano? Hein?
***
A mesma amiga já ouviu o trabalho solo de Marcelo Bonfá, que sai em março pela Trama, e garante que no quesito pop acéfalo, pelo menos, o ex-baterista do Legião Urbana passa. E, sim, ele canta. E fala de amor. Vamos ver...
***
O disco solo de Dodô, ex-baterista da PELVs, no entanto, é coisa fina. Alguma Coisinha Que Eu Fiz Para Os Amigos não tem selo ainda e é basicamente composto por bases rítmicas construídas ao lado de samplers de MPB e formato de canção descendente direto do pop inglês dos anos 80 e 90. E é excelente. Cantado em português, esse disco tem que ser lançado - as pessoas deveriam ouvir isso e perceber que a riqueza da nossa música vai muito além do ufanismo emepebóide fantasiado de world music que domina a nossa mentalidade.
***
Não, eu não vou acabar a coluna com uma notinha que se amarra com o começo do primeiro texto. Eu não lembro do final do filme, não sei nem se o cara consegue matar a mãe. Que dizer se conseguiu publicar - ou mesmo escrever - o livro que sempre iniciava com a primeira frase. Então esquece.
***
Vou acabar é citando um pedaço do editorial do Design de Bolso (os caras têm uma filosofia de vida tão clara e correta que dá vontade de cumprimentá-los toda vez que eles fecham um ciclo - no caso, uma página): “Acertar, errar, agradar... Tampouco importará se não tiver sido feito”.
Tudo ou Nada era uma coluna que eu tinha no site da Loud!, do Star-Me, da London Burning e, de vez em quando, no COL...
TUDO OU NADA
CPS, 19.07.00
Rapaz, esse disquinho do Tim Maia de 76 é um arraso. Se chama só Tim Maia, mas a capa é fácil de reconhecer: a cara dele num quadrado enorme posto no canto direito inferior da capa, mas ocupando-a por mais da metade. Ao redor, uma série estampa cor de rosa e vermelha espalha o nome do cantor pelo resto da capa, branca. Na foto, o cara tá rindo, bigodão, black power e barba rala na parte debaixo do queixo fundindo com as costeletas, gola xadrez à vista. O nome do disco é só Tim Maia, mas ele é conhecido por ser o disco que tem a assombrosa Márcio Leonardo & Telmo (“O Márcio Leonardo veio pra Seroma pra brincar...” e “Telmo! Tell me what to do!”). Comprei-o numa leva em que comprei vários Tim Maias dos anos 70, discos mais fáceis (e em catálogo) de encontrar que raridades como o Tim Maia Racional e o Tim Maia Disco Club. Mas um amigo me atentou pro disco há semanas: “Cara! Ouve aquela do Batata Frita!”. Fui lá ouvir. Pra minha surpresa, localizei a faixa que o Dodô usa como base para Versus, do seu ainda inédito ao público disco solo (o que ele precisa saber pra se convencer que precisa lançar esse disco?). Mas, epa, que discaço. Ouvindo apenas o disco de 76 (antes, só o havia ouvido num período conhecido aqui em casa como a Semana Tim Maia), descubro um álbum tão monumental quanto os Racionais. Com o tema baseado na dança (ele começa com a funkezeira pesada de Dance Enquanto é Tempo - “vem pro samba, vem sambar!” - e termina com o sambinha The Dance is Over), Tim Maia, o disco, mostra o cara descobrindo o amor como se apegasse a uma doutrina pessoal que o libertasse da lavagem cerebral da Cultura Racional - É Preciso Amar, Sentimental (“Sou sentimental e ninguém percebe/ Desse jeito vou acabar me dando mal/ Se eles soubessem que eu amo”), Nobody Can Live Forever (“Ninguém sabe como me sinto”), Me Enganei (“Já não posso nem viver/ Já não posso respirar/ Já não vivo sem você, meu amor”), Manhã de Sol Florida Cheia de Coisas Maravilhosas (“Melhor que viver é viver e saber amar”), todas falam do amor enquanto revelação, descoberta. O disco ainda tem Rodésia (“África do Sul/ Pegue o sangue azul/ Mande para as cucuias”), a tal Márcio Leonardo e o Batata Frita O Ladrão de Bicicleta. Gravado logo depois da fase Racional, Tim Maia (76) é o meu clássico da vez. Discaço.
***
Fui ouvindo o disco naquele Skol Beats. Bem legal. Todos vão dançando, todos num só ritmo, todo mundo é igual... A mensagem subliminar do disco de Tim Maia encaixa-se perfeitamente com a da cultura rave e mesmo que os graves tortos de Fabio e Marky pouco lembrem o suingue macio do velho Tim, todo mundo se interage na mesma vibração, a ponto de um evento que reuna 20 mil pessoas (e, acredite, tinha esse público mesmo) não tenha um registro médico (um mero pé torcido, um simples coma alcóolico) sequer.
***
É importante fazer a distinção entre o mundo clubber e o universo rave, embora muitas vezes eles se confundam. A denominação clubber, embora oficializada nos anos 90, designa uma tribo que existe desde que foram criadas pequenas casas de show nas grandes cidades, destinadas a receber apenas uma porção da população disposta a encarar e encarnar o conceito de modernidade de cada época. Das reuniões para tomar absinto em Londres no final do século passado, aos saraus modernistas do começo deste, à Factory de Andy Warhol, ao Studio 54 e a boate Hippopotamus, tudo isso de alguma forma faz parte da cultura clubber, que glamouriza o urbano, o mundano, o decadente. Já a cultura rave vem da mentalidade Woodstock/Funkadelic que todos podem se integrar no mesmo ritmo, até o quadrado, o cafona, o ultrapassado. É esse astral inclusivo que transforma a cultura rave numa das mais fascinantes manifestações humanas de nossos tempos, fazendo que, aos poucos, a civilização se dê ao luxo de prazeres tribais, primitivos e insubstituíveis.
***
Se eu produzisse shows, botava o Cidadão Instigado (que toca em SP no próximo dia 27), o Mopho e o Violeta de Outono na mesma noite (talvez com abertura dos Jerssons). Nem pra ganhar grana, mais pra promover um showzão. E o Vulgue Tostoi pra abrir pro Radiohead.
***
E como é que nenhum produtor se dispôs a trazer um show do Radiohead pro Brasil? Se dependermos do Rock in Rio pra ver o grupo, vai ser complicado, porque corre o risco de ter a intensidade de palco da banda diluída naquele clima “se a vida começasse agora...”. O ideal seria um show num lugar tipo Palace, Via Funchal... Pequeno o suficiente pra conter a tensão musical e grande o suficiente pra caber todo mundo. E não duvide se lotar.
***
E rola o papo que o Paulo Ricardo anda enchendo a bola do 4-Track Valsa e ele tem razão. Poucas bandas no Brasil têm a personalidade do grupo da colega de publicação Cecília Gianetti. E ultimamente, personalidade para a maioria das bandas é uma camiseta com algum logotipo famoso, um penteado diferente e um assunto específico. Quando os cinco se reúnem, um magnetismo estranho toma conta do ambiente, fazendo com que possam passear por terrenos diferentes como Maysa, Chet Baker, Robert Smith ou Stereolab e soar coerente, como uma banda que imprime a própria identidade musical no som, não em brincadeiras no palco ou no encarte do disco. Agora que Fábio “FZero” Soares foi incorporado à produção do grupo, putz, se preparem.
***
E o Relespública na Universal, vocês viram? O Reles é, fácil, uma das melhores bandas de rock’n’roll do Brasil. Quem não teve a sua Relespública experience, não pode perder. Eu tive em 1994, no segundo Juntatribo, quando o vocalista Daniel Fagundes havia acabado de morrer e o destino da banda parecia incerta. Com Ivan (hoje n’OAEOZ) nos vocais, a banda calou o público do festival numa noite que ainda teve um Linguachula, um Magog e um Little Quail perfeitos, o rap rock ainda inédito do Planet Hemp e do Câmbio Negro pesando pacas e o samba noise do Virna Lisi em ponto de bala. Foi uma das noites mais célebres do rock independente brasileiro na década passada (após a igualmente célebre maratona do dia anterior, que juntou duas noites no mesmo sábado, após o show do Resist Control que botou o palco do festival literalmente abaixo). E o fato do Reles ter conseguido calar o público mostra como foi truculenta sua apresentação. Quem tinha as referências estava pasmo com a semelhança com o Who, reverência assumida pelos integrantes da banda. Quem não tinha, simplesmente rendeu-se à ebulição instrumental do motor da banda, o dínamo formado pela guitarra de Fábio, o baixo de Ricardo e a bateria de Emanuel. Showzaço, arrebatador. Vamos ver como é que eles vão se sair numa major...
***
E já lanço a campanha, já que as duas bandas são da Universal: “Mega Turnê Brasileira Autoramas/Relespública 2000”. Se o marketing da gravadora for esperto e der ouvidos ao que as bandas falarem, eles fazem uma viagem pelo país inteiro, enchendo a casa em cada lugar que tocarem. E ganham público local, o que é cada vez mais difícil de conseguir graças à influência nefasta das grandes redes de FM, que simplesmente enfiam lixos tímpano abaixo do povão. Que adolescente neste país não gostaria de ouvir um grande show de rock, cantado em português, com bandas palpáveis, artistas com quem ele poderia se identificar? É esse vínculo que o rock brasileiro precisa retomar, se quiser voltar a ser popular. Por isso, lanço a tal campanha.
***
Falando em “melhores bandas de rock’n’roll do Brasil”, tu consegue citar as dez melhores atualmente? Por rock’n’roll, entenda o groove guitarreiro primitivo que faz o corpo querer se mexer num mesmo ritmo. Eu acho que consigo, sem ordem de preferência: Butchers’ Orchestra, Relespública, Ambervisions, Walverdes, Autoramas, Mopho, Jupiter Apple (que ainda é rock’n’roll pacas, ao vivo), Grenade (ainda mais com a banda Ordinary, que quando embala...), Violeta de Outono (Fábio tem isso no sangue, não dá pra explicar) e o Ira!, que apesar de ser de outra geração, ainda arrebenta ao vivo. O Plebe Rude fica fora desta só pelo vacilo do Phillipe querer ficar solando o tempo todo - quebra a química da banda, inegável.
***
Me falaram, não dei bola, mas é verdade: o disco do Toni Platão é bom. Não BOM, “bonzaço, tem que comprar!”. Tu gostou do Lobão do ano passado? Se sim, então compra, é por aí. Eu gostei.
***
Vi o show do Lobão em Brasília, o cara entrou quase às quatro da matina naquele festival Porão do Rock. Valeu esperar. Com um baixo (Dé, ex-Barão - tu sabia que o Dé tem pouco mais de trinta anos? Que ele entrou molecaço pro Barão e que não beira os quarenta como seus colegas de geração?) e um batera acompanhando, ele fez um grande show. A primeira parte da apresentação é quase imposta - tocando apenas músicas de seus dois últimos discos. Depois, cede aos hits - e quantos! O show de Lobão é meio túnel do tempo, meio dedo na tomada; algo como se Lou Reed voltasse ao vigor da eletricidade rock que abandonou nos anos 90, em opção de uma sonoridade jazz de propaganda de cigarro/rock moderno/adulto contemporâneo. Bom show, grande parte graças ao talento do compositor como homem de frente. “Não tocou rock, sou rock”, disse em entrevista a um veículo local. Marketing pessoal tem que ser eficaz para funcionar - não capengue em público porque dá na vista. O show demorou quase duas horas e meia e Lobão não capengou.
***
O disco novo da Nação Zumbi só tem um hit, Quando a Maré Encher, que nem deles é (é do Eddie). Gruda na cabeça como o “Tamo aí mandando brasa!”, do hit anterior, Malungo. O resto do disco, Radio S.Amb.A., nome bobo, é dedicado às viagens instrumentais do grupo ponteadas por palavras de ordem ou cantos afro. É o disco que acende o “delia” do termo Afrociberdelia, liberando o grupo para jam sessions memoráveis. Não precisam de hits porque Chico deixou um monte: até Risoflora é pedida nos shows!
***
E já reparou na quantidade de discos bons nacionais que estão saindo? Só os do Planet, do Mundo Livre e do Skank são obras-primas suficiente para garantir a fornada de um ano, mas ainda tem mais coisa boa pra sair no próximo semestre... Sem contar as estréias, as surpresas que nem as gravadoras se deram conta que existem por aí...
***
Pra acabar, deixa eu pedir desculpas pelo atraso da coluna. Minha vida deu um disparo de 180 graus e agora que eu tô conseguindo coloca-la nos eixos. Vamos ver se eu me acerto a partir daqui. Falou.
Van Gogh Porra Nenhuma era a coluna que eu tinha no site da gravadora 6090, de Curitiba...
VAN GOGH PORRA NENHUMA
Por Alexandre Matias
Fazer
O cara foi lá no gravadorzinho quatro canais que ele tinha em casa e gravou um som. Pegou um violão, cantou uma música pra mulher. Voltou a fita e jogou uma percussão em cima, nada sério - um bongô tocado na buena, sem estresse. Voltou a fita e gravou umas bobagens, detalhes pra deixar o som mais informal. Quando ele fez isso, não era fácil. Não era qualquer um que tinha um estúdio em casa ali, largado - pra gravar quando estivesse de bobeira e ficar brincando com o som. Quando ele fez isso, tinha acabado de deixar de ser um Beatle - era o Paul McCartney gravando seu primeiro disco solo, que está tocando agora ao fundo.
Hoje é muito fácil. Qualquer bandinha, por menor que ela seja, tem um estúdio próprio - na pior das hipóteses tem um estúdio cativo, onde ensaia sempre e que pode chamar de “meu” estúdio. Com computador, internet, tudo isso à disposição ainda - putz, é baba. Tô cansado de ouvir neguinho mais velho que eu dizer que “no meu tempo” era mais difícil arrumar instrumento, comprar disco, descobrir banda nova, gravar fita. Hoje todas as ferramentas inventadas pelo sistema estão à disposição pra quem quer fugir dele.
Basta ir lá e registrar o que tu acha que vale à pena. Quer escrever um texto? Escreve. Quer gravar uma música? Grave. Montar uma banda? Criar um zine? Uma gravadora de discos? Um livro? Produzir shows? Produzir bandas? Ser reconhecido na rua? Dar autógrafos? Fazer turnê? Usar drogas? Jogar cassino? Filmar sua própria intimidade pro resto do mundo? Investir em Commodities? Abrir uma casa de shows? Pense numa coisa que você queria fazer, sem se prender a nomes específicos, e em seguida faça.
Fazer é a chave. Tudo que eu fiz, fiz porque não tive vergonha de arregaçar as mangas e me atirar no trabalho. Não nesse trabalho jeca e vazio que a sociedade gira em torno. Desse trabalho eu quero distância. Quero fazer coisas cujo salário eu receba no meu espírito. É claro que eu preciso dessa merda de dinheiro pra sobreviver, mas não quero muito, não quero mais. Dinheiro é uma armadilha filhadaputa: quanto mais se tem, mais se quer. Tô fora. Quero fazer coisas que digam algo pra mim - tô fora do trabalho pelo trabalho. Quero ter tempo para fazer as coisas que gosto - sendo não fazer nada uma delas. Trabalho por gosto. Tenho um emprego tão imbecil e chato quanto esse você está reclamando agora, mas posso fazer o que quero com meu tempo restante. Mesmo no tempo que sobra entre as horas dedicadas a fuzilar neurônios cujas mortes apenas servirão para pagar minha comida. Mas faço.
Não por idealismo, não por romantismo - repito: faço porque gosto, porque quero. Outro dia um amigo cantou a bola: foda-se a revolução das massas, foda-se o coletivismo, foda-se o trabalho em equipe. Esses lemas são injetados na nossa cabeça como regras que temos que obedecer e já disse alguém aí que regra só existe pra ser quebrada. A revolução só é possível através do indivíduo, depois que cada um sabe exatamente o que quer e como quer fazer as coisas que quer. Não adianta você tentar conscientizar toda uma população de uma série de ideais que está distante de sua realidade. Vira manobra de um grupo de espertalhões. A história tá aí pra quem quiser ver. A revolução francesa saiu do povo e o que aconteceu? Napoleão ditador. A revolução russa saiu do povo e o que aconteceu? Stalin no poder. O golpe dos milicos foi apoiado pela passeata dos 100 mil. E aí? Médici, Golbery e esses outros pulhas. O trabalho enobrece o homem? Porra nenhuma. Trabalhando oito horas por dia, o sujeito mal tem tempo para pensar nas coisas que gosta e sem incentivo nenhum para trabalhar (“incentivo é emprego”, pérola soltada por um desses capitalistas de plantão), trabalha feito um robô, sem tesão, sem vontade, só pelo simples fato de saber que sem aquele emprego ele não vai ter porra nenhuma. Maior papo furado. Esse trabalho é o verdadeiro ócio. Sem tesão pelas coisas que faz, o coitado gasta o melhor da sua vida fazendo coisas que não quer e usando o tempo livre para descansar. Como cana-de-açúcar, é espremido e pisado nas engrenagens do sistema. O que resta? O bagaço, depois da aposentadoria, se sentindo inútil por não trabalhar mais, se sentindo inútil por não ter o que contar, se sentindo inútil pois já deu tudo que podia dar.
Vamos curtir o ócio, o não fazer nada, esticar as pernas sobre o sofá e pensar no que se pode fazer com aquele tempo livre. Vamos lá: tu tá me lendo aqui e com certeza já pensou em algo que realmente gostaria de estar fazendo. Aí pensa: “mas esse mané teve sorte o suficiente pra fazer as coisas que gosta”. Tive sim. Mas não só sorte. A sorte apareceu porque eu me dispus. Se tive só sorte alguma vez na vida foi em ter nascido numa família de certa forma estruturada que me pôde dar condições para estudar. Só isso. Todos os outros golpes de sorte que tive foram decorrentes do trabalho que fiz, que mostrei e me dispus a fazer.
Pois faça alguma coisa enquanto é tempo. Pegue o seu tempo disponível e em vez de ficar lendo jornal e reclamando da vida, faça alguma coisa. A quantidade de informações que passeiam pela nossa cara diariamente nos oprime e nos faz sentirmos estáticos e passivos a cada dia. É hora de virar a mesa, de pôr as coisas pra funcionar, as coisas que você quer. Foda-se se não der em nada no futuro, pelo menos agora está dando. Dores de cabeça vão vir mas elas fazem parte, depois que tu fizer o que tinha vontade de fazer vai se sentir realizado como nunca sentiu. E vai ter o que contar pros netos. Vamos lá, o que tu tem a perder?
Alexandre Matias é editor do Trabalho Sujo (http://www.diariodopovo.com.br/trabsujo).
Sunday, July 07, 2002
Entrevista com o Jello Biafra, que eu fiz pra Rock Press...
PRESIDENTE KENNEDY
Jello Biafra solta o verbo sobre globalização, processos judiciais, Sílvio Santos, alimentos transgênicos, protestos contra o FMI, corrida eleitoral, pornografia, Gordo na MTV, ecologia e a guerra santa da verdade das câmeras de vídeo!
Alexandre Matias
Muito poderia ser dito à abertura de uma entrevista com Jello Biafra. Mas, sério, precisa? Jello fala pelos cotovelos e gosta, ele age ao telefone com a mesma verborragia cínica que destila nos microfones do planeta, misturando ideologia, economia global, preconceitos e arte num carregamento expresso de palavras cuspidas com firmeza de uma das línguas mais afiadas da história da cultura pop. Quase uma hora de papo com o cara pelo telefone explica muita coisa. Então tá: domingo de eleição (primeiro turno), cinco horas da tarde (a hora em que as urnas se fechavam - MUITO sintomático) e o telefone do cara na mão, me passado feito senha secreta pra detonar a bomba da terceira guerra mundial. Não era tanto. Era apenas mais uma das bombas verbais do presidente Kennedy, bem na minha orelha. Toca o telefone, duas vezes e atende. A secretária eletrônica.
Secretária eletrônica - “O coelho Aldous é um coelho muito especial. Porque o pelo de Aldous brilha verde fluorescente no escuro. Não por causa da tintura de cabelo punk, mas porque Aldous foi manipulado geneticamente para ser deste jeito pelo artista Eduardo Kosch. Há muita controvérsia sobre formas de vida transgênicas para motivos frankenstalimentares, mas... artísticos? Descubra o que as pessoas pensam quando Aldous será exposto em público no simpósio de Chicago chamado Arte, Ciência e Liberdade de Expressão: O Mundo de Eduardo Kosch, que começa dia 17 de setembro, em Chicago”.
Rockpress - Olá Jello, aqui é Alexandre, do Brasil. Falei com a Michelle da Alternative Tentacles e se você estivesse em casa...
Jello Biafra - Alô.
Rockpress - Alô? Jello?
Jello Biafra - Sim.
Rockpress - Tudo bem?
Jello Biafra - OK.
Rockpress - Dá pra fazer a entrevista agora?
Jello Biafra - Claro.
Rockpress - Eu queria então que você começasse falando sobre as manifestações de Seattle contra as grandes organizações que representam a globalização, o FMI, o Banco Mundial, a OMC (Organização Mundial do Comércio)...
Jello Biafra - Você está gravando?
Rockpress - Sim.
Jello Biafra - Volte a fita para ouvi-lo.
Rockpress - Claro. (Voltei a fita, ele ouve a própria voz e consente).
Jello Biafra - OK.
Rockpress - Entre as formas que você poderia ter usado para falar o que queria, você preferiu cantar.
Jello Biafra - Eu cantei e discursei. E é bom frisar que não foram tumultos, que aquilo foi distorcido pela mídia corporativa porque alguns idiotas quebraram umas janelas. As únicas pessoas que tumultuaram foi a polícia. Eu acho que é bom ponto para seu público, aprender como a mídia corporativa trabalha. Eles dizem que é um tumulto porque quebraram umas janelas mas não falam das 50 mil pessoas em paz.
Rockpress - Mas você acha que a música é a forma mais poderosa de atingir outras pessoas?
Jello Biafra - É uma delas. Você pode fazer isso falando, pelo rádio, filmando, pelo jornalismo. Todo mundo deveria fazer o que pode.
Rockpress - Mas a música parece agir de forma mais próxima, porque atua de uma forma mais emocional em relação às pessoas. Você concorda?
Jello Biafra - Houve uma discussão sobre como deveríamos fazer o show no final da manifestação, porque havia muitos policiais e tinha gás para todo lado. Estávamos presos dentro de uma casa de shows assistindo a polícia pela TV do lado de fora. Na noite seguinte ainda houveram problemas com a polícia, toque de recolher e o Michael Franti, do Spearhead, disse: “Agora, de todas as formas, as pessoas precisam de música”.
Rockpress - Um aspecto que parece ser positivo da globalização é o fato de você polarizar a discussão entre os que exploram e as diferentes forças intelectuais e ativistas de esquerda.
Jello Biafra - Não é tão simples. As forças da globalização ainda estão no controle. Eles ainda têm o dinheiro, o poder, a mídia e as armas. Mas essa é a mesma situação que a América assistiu quando algumas vozes solitárias começaram a pedir o fim da guerra do Vietnã, quando algumas vozes corajosas na América do Sul exigiram o fim de ditaduras militares arriscando a própria vida. Você tem que começar em algum lugar, mas o ponto é que isso está apenas começando.
Todo mundo tem de se envolver por todo mundo. Por exemplo, eu ouvi falar que há uma resistência no Brasil ao cultivo de alimentos geneticamente adulterados - ou deveria dizer, mutilados. Nos Estados Unidos, quase ninguém sabe que isso existe, que dizer que já está em nossa comida, agora. Ajuda quando as pessoas no Brasil, na Europa e agora na África e Índia resistem à franken-comida. Ajuda o fato das pessoas do Brasil ajudam o resto de nós salvar os Estados Unidos deles mesmos (risos).
Rockpress - Porque o capitalismo se vende como um paraíso, mas na verdade só oferece uma opção. Veja a atual campanha presidencial americana, em que os dois candidatos são praticamente o mesmo.
Jello Biafra - Sim, o mesmo, mas a maioria das pessoas por aqui não votam, que é o que as corporações querem. Eu estou tentando fazer as pessoas votarem porque existe um bom terceiro candidato chamado Ralph Nader, do Partido Verde. Mesmo se ele não ganhar, o que provavelmente não vai acontecer, a vitória não vem logo adiante: se ele ganha 5% dos votos, o dinheiro que o governo dá aos grande partidos durante a campanha virá de forma equivalente para o Partido Verde. Isso quer dizer 12 milhões de dólares americanos, no mínimo. Podem ser importantes para fazer crescer o perfil e a atenção do Partido Verde nos próximos anos.
Rockpress - Mas surte efeito jogar o jogo político com as regras de quem manda?
Jello Biafra - Eu acho que é melhor do que não fazer nada. A ação nas ruas é uma parte disso, mas a outra é tirar estes imbecis dos escritórios deles, que é uma coisa que ainda podemos fazer. A maioria das pessoas não sabe que estes outros candidatos existem, porque sua liberdade foi tirada pela censura da mídia. A notícia é que o Ralph Nader, do Partido Verde, existe. Mas outra razão para participar mesmo sendo pelas regras deles, é o princípio das artes marciais que fala para usarmos a força de alguém contra eles. Talvez não vamos ter um bom presidente, mas se as pessoas se fizerem ouvir, vão ter pessoas melhores nos escritórios governando cidades, escolas, estados... Não é só o presidente. A maior parte do dinheiro que é mandado do governo federal vai à instância local para ser decidido como ele será gasto, se será gasto em casas para os necessitados ou em um outro campo de golfe. Também é muito importante ver quem está mandando nas escolas, pois ao contrário farão as crianças terem aulas sobre a Bíblia.
Rockpress - E em paralelo a este jogo de mídia, há todo um poder no submundo da internet que não gosta de aparecer e faz tudo que tem de fazer longe do olho público. Qual é o papel político destes caras?
Jello Biafra - Há trinta anos a mídia era independente e ajudava a policiar os governantes e as corporações mostrando como estes agiam de forma imbecil. Agora a mídia foi comprada por estas mesmas corporações e tornou-se basicamente numa vitrine de propaganda para as mesmas. O movimento de mídia independente começou a tomar o poder de volta deles à medida que as pessoas estão tendo a informação real via internet, pela televisão pública ou microrrádios.
Por exemplo, a CNN disse que, em Seattle, a polícia estava agindo comportadamente e não houveram balas de borracha disparadas. E a mídia independente colocou no ar na internet em menos de uma hora, cenas de policiais atirando nos manifestantes com balas de borracha. CNN foi forçada a mudar sua história pois outras pessoas trouxeram suas câmeras também. Eu chamo isso a guerra santa da verdade do câmera de vídeo (camcorder truth jihad), quando mostra-se algo que não deve ser visto.
Rockpress - Mas como esse movimento consegue quebrar o ciclo que o público quer exatamente o ideal de felicidade que o capitalismo vende?
Jello Biafra - Mas nem todas as pessoas, na América e no mundo, não estão tão felizes agora. Falam de como a economia está ótima e como os Estados Unidos nunca foram tão ricos, quando apenas uma em cada cinco pessoas está se beneficiando deste boom econômico. Os outros 80% não tem porra nenhuma. São 80% das pessoas se fodendo e sem saber porquê. Eles podem não entender os motivos, mas aos poucos vão sabendo. Por exemplo, em Seattle, não eram apenas radicais, punks e hippies marchando contra a OMC, mas haviam os sindicatos também. Todo mundo desde metalúrgicos a pilotos estavam marchando lado a lado com pessoas que são normalmente tachadas de loucos. Isso é algo importante a ser salientado: os sindicatos não ajudaram a protestar contra a guerra do Vietnã, mas agora estamos do mesmo lado.
Rockpress - E qual vai ser a velocidade deste desenvolvimento político?
Jello Biafra - Ele vai acontecer. Vai ser difícil, mas tem de ser feito. Vai demorar pelo menos o mesmo tempo que demorou para parar a guerra do Vietnã, talvez mais. Porque desta vez o inimigo são as próprias corporações.
Rockpress - O presidente do Brasil também fechou esse acordo de fortalecimento da economia com o FMI...
Jello Biafra - ...e ele deve! Caso contrário, eles descobrem uma forma de derruba-lo.
Rockpress - Deste jeito, nossas riquezas estão sendo aos poucos repartidas pelas corporações estrangeiras. Como você acha que o Brasil pode reagir a isso, uma vez que você conhece a história dos países latino-americanos?
Jello Biafra - Eu acho que é importante lutar o máximo que puder para preservar o que resta da Amazônia e suas tribos nativos. E educar o máximo de pessoas que a maior parte das riquezas vão para corporações multinacionais, não apenas americanas, mas européias e japonesas, e não para o Brasil. Há um discurso que diz que devemos explorar a Amazônia para tirar o Brasil da pobreza, mas não é isso que acontece. Os mesmos ricos tiram o dinheiro e tudo mais e todo o resto continua na mesma. Eu tenho a impressão que a maioria dos brasileiros apóiam a exploração das riquezas nativas.
Rockpress - Sim, porque vem embalado como progresso.
Jello Biafra - O importante seria apontar que isso não estava fazendo bem algum ao país. O Brasil parece um país muito nacionalista, então acho que a primeira coisa a fazer é falar o jeito que eles falam.
Rockpress - Além do fato que o inglês tornou-se uma espécie de uma segunda língua por aqui.
Jello Biafra - Muitas bandas daí cantam em inglês (risos).
Rockpress - Não apenas o Brasil, mas o terceiro mundo como um todo acaba parecendo um mutante entre a cultura americana e a cultura local.
Jello Biafra - Não apenas por causa da TV americana, mas a música também deve ser culpada.
Rockpress - Mas esta mesma música que aliena as pessoas, voltando ao início da entrevista, pode faze-la entende-las?
Jello Biafra - Sim. Você já disse isso, a música pode agir num nível emocional ou espiritual. Eu posso ouvir Ratos de Porão em português e ainda sentir a música, a energia, a emoção. Não são todos americanos que suportam isso, eles não conseguem ouvir outra música que não seja cantada em inglês.
Rockpress - Qual a imagem que o Brasil tem nos Estados Unidos?
Jello Biafra - Uma das piores partes sobre o fato das corporações controlarem a mídia é que a forma que eles censura alguns assuntos importantes existem pra valer. Então as únicas vezes que você ouve falar no Brasil é quando há um acidente de avião ou o time de futebol ganha. Os americanos não tem a menor idéia sobre o Brasil. Sabem que é na América do Sul, que tem muita floresta, que as cidades são muito poluídas... Os que sabem mais um pouco sabem que existe uma enorme desigualdade entre o mais rico e o mais pobre. Mas além disso, ninguém mais sabe mais nada. Eu acho que eu sei mais um pouco porque eu falo com brasileiros com mais freqüência, mas a maioria dos americanos, não, claro (rindo).1
Rockpress - Você esteve no Brasil em 92. Qual foi a sua impressão quando viu as coisas que já haviam lido sobre?
Jello Biafra - É difícil dizer porque eu não fui à floresta ou qualquer coisa do tipo... Eu só fui ao Rio e a São Paulo. Claro que as favelas eram muito chocantes, mas não surpreendentes. Um amigo brasileiro me levou a uma favela no Rio e ficamos lá à noite para ver uma banda que havia por lá. Há uma atmosfera de felicidade estranhamente diluída na superfície: as pessoas conversando com amigos e vizinhos e bebendo nas ruas... Mas consigo me lembrar de mais coisas além dos velhos discos brasileiros legais que eu encontrei lá. Primeiro foi descobrir que o que os americanos queriam forçar no tal encontro de cúpula (a Eco-92) que as corporações americanas poderiam entrar na Amazônia, pegar o gene de um animal e uma planta e dizer que era delas, vendo por um preço alto para alguém, sem pagar nada para as pessoas que mora lá. Outra coisa que eu me lembro, até comentei isso outro dia, que eu vi que haviam sacos plásticos nos mercados do Brasil do mesmo jeito que nos Estados Unidos. E disseram: “isso mostra como estamos evoluindo no mundo”, o que é justamente o contrário (risos).
Rockpress - E é exatamente assim que a população vive: achando que cada pequena coisa colocada pelo capitalismo é algo que eleve seu nível de vida e não o contrário.
Jello Biafra - Será mágico como um programa de TV americano. Mas por um outro lado, parece que em vez do Brasil ficar cada vez mais parecido com os Estados Unidos são os Estados Unidos que vão ficar mais parecidos com o Brasil. Um dos economistas do Ronald Reagan dizia que usava o “modelo brasileiro” para o futuro dos Estados Unidos: o rico fica bem mais rico, o pobre fica bem mais pobre e você aciona o poder militar e a polícia para ter certeza que ninguém reclame. Eu lembrei de outra coisa que eu vi no Brasil, era um programa de TV que só mostrava closes em gente morta, toda noite: gente que levou tiro, atropelados... E agora você vê o mesmo tipo de programa nos Estados Unidos.
Rockpress - Prepare-se então para a próxima onda, com mulheres esfregando o rabo na câmera... Sucesso absoluto por aqui. Além dos crimes, claro.
Jello Biafra - Isso não me surpreende, não mesmo... Isso já tem aqui. Até os programas de debate, como Jerry Springer, em vez de pegar gente discutindo assuntos tem gente se pegando na porrada. Aí você muda para a Janie Jones e a grande pergunta do dia é “minha filha peituda está mostrando muita carne na escola?”, desfilando adolescentes com peitões na TV... É só sexo e violência, TV é isso. O que aconteceu com um apresentador em São Paulo que tinha um programa de jogos, que parecia um crocodilo e tinha um microfonezão saindo de dentro do peito?
Rockpress - (Risos)
Jello Biafra - Você deve saber de quem estou falando...
Rockpress - Sim, Sílvio Santos...
Jello Biafra - Ele foi candidato a prefeito...
Rockpress - Eu estou o vendo na TV agora mesmo, ele continua no ar. Hoje, inclusive é eleição para prefeito no Brasil.
Jello Biafra - Ele está concorrendo de novo?
Rockpress - Não, ele não chegou a concorrer. Ele só ameaçou fazer, para atrapalhar a disputa. Como o Ted Turner fez...
Jello Biafra - ...Não lembro se ele fez isso, mas sei que ele sabe que tem mais poder onde ele está (risos).
Rockpress - Mas qual era a do programa, que você ia falar?
Jello Biafra - O mais louco era que na noite em que eu assisti, o grande prêmio era uma arma (risos)! O show acabava, começava a chover papel do teto, os créditos subiam e ele e a mulher que ganhou o prêmio estavam atirando com suas armas felizes e satisfeitos. Não chega a ser tão estranhos quanto os programas de TV no Japão, mas... Mesmo dando um prêmio como uma arma num programa de TV e ao mesmo tempo tem um show com fotos de cadáveres... Isso é uma forma de dessensibilizar as pessoas em relação à violência. Tentar provar para as pessoas que aquilo é normal. E isso está acontecendo nos Estados Unidos também... Embora não haja nenhuma revista como a Rudolf nos Estados Unidos (risos). Muito menos vendida em bancas de rua onde crianças podem ler...
Rockpress - ...e comprar.
Jello Biafra - É estranho. Se o país é muito religioso, fervorosamente católico; o outro lado é tão fervoroso também. Tem uma loja de souvenirs no Corcovado que vende filmes pornô (risos)!
Rockpress - Mudando um pouco de assunto, eu queria que você falasse da briga judicial entre a Alternative Tentacles e os ex-Dead Kennedys.
Jello Biafra - Foi a coisa mais escrota que já aconteceu em toda minha vida. Gastei um bom tempo tentando lembrar as pessoas da nossa música e o que ela significava elas, quando tudo o que eu queria era que eu não tivesse conhecido esses imbecis. Eu não vou deixar eles colocarem Holidays in Cambodja numa propaganda da Levi’s. Então eles vieram atrás de mim com um grande advogado corporativo que também representa o Journey, o Boston, os Doobie Brothers e o Santana, e eles estão me processando por não ser corporativo, tentar destruir a Alternative Tentacles e roubar a música. Eles ainda mentiram ao dizer que escreveram todas as minhas músicas. Dizendo que eu estava roubando dinheiro deles quando na verdade eu havia os pago. Para o choque de todos, incluindo deles mesmos, o júri acreditou nisso. E agora, mesmo estando num puta rombo financeiro, eu tenho que juntar grana para apelar na justiça. Nesse meio tempo, eles estão tentando vendendo o catálogo dos Dead Kennedys o quanto antes sem se preocupar com nada. Por isso se você ver qualquer disco da Alternative Tentacles por outra gravadora NÃO COMPRE. Eles ainda usaram dinheiro que roubaram de mim para pagar o advogado deles. Eles não ligam para o que a banda significou, só querem dinheiro.
Rockpress - Quando você vai apelar?
Jello Biafra - Ainda não. Estou me preparando. Toda essa coisa influencia meus sentimentos a respeito do Napster, do download de músicas... Se eles conseguirem tirar minha música de mim, então o Napster será meu melhor amigo.
Rockpress - E o que você acha do Napster hoje?
Jello Biafra - O Napster deve ser destruído em breve pelas grandes gravadoras. Mas logo uma nova tecnologia que será mais difícil de destruir irá substituí-lo. Isso faz parte da bela e a fera que é a internet: não importa que tipo de garras que ponham no caminho e fechem as coisas; sempre haverá um moleque chateado de qualquer idade que irá encontrar um jeito de foder com aquilo (risos)!
Rockpress - Aproveitando a deixa, o que você acha dos direitos autorais. Você não acha que isso tem de ser revisto?
Jello Biafra - Provavelmente. Agora mesmo estou lutando pelos direitos das minhas próprias músicas (risos). Querem roubar para coloca-la em comerciais e filmes de merda. Mas por outro lado, eu não sei o que vai acontecer. Eu não estou tão preocupado com o Napster ou com essa tecnologia, porque já acabou. Não vai fazer tão mal quanto alguém gravar um filme da televisão ou xerocar parte de um livro para um jornal da escola. Muitas pessoas que usam Napster não o fazem para roubar música, mas para ouvir antes de comprar. Você baixa uma música e se gostar, vai procurar o disco. Demora muito tempo para baixar um CD inteiro no Napster. Tanto tempo que o usuário prefere pegar o CD.
Rockpress - E ao mesmo tempo
Jello Biafra - Eu espero que as pessoas apóiem a música independente. Porque o Napster pode começar a machucar pequenos músicos, que não têm muita grana e dependem da venda do Napster. Mas até aí eu sou pró-Napster. Eu tenho que ir (espreguiçando).
Rockpress - Legal, Jello. Ótima entrevista.
Jello Biafra - Você também gostaria de saber que tem um disco novo meu, falado, que vai sair agora em novembro, que chama-se Become the Media. E um novo EP do Lard chamado Seventies Rock Must Die.
Rockpress - Become the Media (torne-se a mídia) é um conselho?
Jello Biafra - É um grito de guerra. Torne-se a mídia ao tornar-se parte da guerra santa da verdade da câmera de vídeo. Pegue os policiais que bateram em Rodney King e os caras atirando balas de borracha - esta é a guerra santa da verdade. Apóie zines, rádio, música, a cultura independente... E, claro, apóie a cultura independente ao não dar dinheiro para grandes lojas em cadeia - sejam lojas, restaurantes... Tornar-se a mídia significa ser didático com as pessoas de casa, na família, na escola... Quando ouvir bobagens como “vou votar em Gore porque o Bush é pior ainda”. Conte a elas... a verdade.
Rockpress - Planos para vir ao Brasil?
Jello Biafra - Não por enquanto. Eu gostaria voltar, mas não parece que eu possa ir agora. Eu estou no meio de uma batalha legal...
Rockpress - Quando a revista sair, eu faço o possível para ela chegar em suas mãos.
Jello Biafra - Acabamos de lançar um disco novo do Ratos de Porão, o Crucificados pelo Sistema, que é uma regravação do primeiro álbum. Tá muito mais insano agora. O primeiro é muito bom, mas eu fiquei surpreso com esse novo...
Rockpress - Você sabia que o Gordo trabalha na MTV Brasil?
Jello Biafra - É engraçado, porque ele nega. Mas eu prefiro ter o Gordo na MTV que a Britney Spears. Ele é um exemplo bem mais positivo para jovens em todo mundo do que o mais novo clone pop americano.
Rockpress - Tá bom Jello. Valeu.
Jello Biafra - OK. Tchau.
O Jimi Tenor que eu fiz pra Showbizz.
A Escandinávia parece um anexo do planeta, de tão alheio e distante do resto da realidade mundial - uma sociedade sem problemas, sistema político e econômico eficaz, cidadãos satisfeitos com a própria vida e queixas apenas ao tédio da vida utópica (nem tudo é perfeito). Sentindo seu distanciamento do cotidiano planetário, os países daquela região inconscientemente criaram produtos que pudessem ser consumidos pelo resto do mundo e possibilitasse sua plena aceitação.
A Suécia nos deu uma linhagem de pop em estado bruto iniciada pelo Abba e seguida por asseclas como Roxette, Ace of Base e Cardigans. A Noruega levanta a bandeira do mais escuro dark metal, enquanto a Dinamarca levanta a mão para chamar atenção para “o maior festival de rock do mundo”, em Roskilde. Dos quatro países, só a Finlândia não emplacou nada em grande escala (tudo bem, o hardcore finlandês extrapolou suas fronteiras, mas só chegou aqui no Brasil). Mas um baixinho branquelo tem dado motivos de sobra para ficarmos de olho naquele país.
Jimi Tenor começou a mexer com música em festivais para televisão, competindo com bandas chamadas Himo e Pallosalam, no nascimento da cena pop finlandesa, durante os anos 80. Na metade daquela década fundou seu próprio grupo, os Shamans, onde misturava a tensão hermética do pós-punk com experimentalismo industrial, cuja marca registrada eram enormes tambores de óleo usados como percussão. Até que depois de três discos e quase surdo mudou-se para Nova York, onde arranjaria um emprego de fotógrafo do Empire State, retratando turistas do lado de uma réplica de King Kong.
Foi aí que Tenor descobriu seu traquejo para agradar as pessoas e - por que não? - ser pop. Lançou um disco de lounge chamado Sähkömies, onde despejava suas segundas intenções sexuais ao exclamar um soul pesado com hormônios em alta e doses de eletrônica. Um hit em uma Love Parade (Take Me Baby, em 94) e começava a lenta e paciente ascensão mundial do maior representante do pop finlandês que se tem notícia. Os discos seguintes (a trilha sonora sem filme Europa, de 1995, o Intervision, de 96, Organism, de 99) apenas consolidariam sua fama de Barry White em negativo, fazendo funks lentos e cafajestes suarem de paixão, cobertos por um minimalismo robótico que o levou a ser contratado pela gravadora Säkho (casa da renascença eletrônica finlandesa, de grupos com Pan Sonic e Ø. Este ano entrou em outra onda, ao abraçar jazz vanguarda (Ornette Coleman, Sun Ra, Stan Kenton) e clássicos da história da música cinematográfica (como Lalo Schinfrim, Bernard Hermann e Ennio Morriconte) ao lado de uma orquestra polonesa, no extraordinário Out of Nowhere, um dos melhores disco deste ano.
Influências
Isaac Hayes, Barry White, Curtis Mayfield, Burt Bacharach
Disco essencial:
Intervision (1996)
O Renato Parada cita, rapidinho, esse texto sobre o show do Mogwai.
Entrevista com o Renato Russo, em 1994, que foi pra Folha (tem que ser assinante do uol...), se bem que aqui dá pra ler na faixa.
Texto sobre protopunk, pra Rockpress.
Clash, Ramones, Buzzcocks, Joy Division, Sex Pistols, X, Jam, Television, Fall, Cars, U2, Black Flag, Wire, Hüsker Dü, UK Subs, Suicide, Blondie, Dead Kennedys, Smiths, Echo & the Bunnymen, Richard Hell & the Voivods, Talking Heads, B-52’s... Toda a geração de bandas que pode ser englobada no chamado período punk da história do rock (que agrupou diferentes tendências como punk, hardcore, new wave e pós-punk) não teria existido sem dez anos de barulho curtido no underground americano. Toda a cena faça-você-mesmo que explodiu com o punk e criou a “segunda via” do mercado de rock no planeta não aconteceria da mesma forma não fosse um punhado de bandas ilustres e diversas bandas anônimas de uma elite comportamental chamada de protopunk.
Quem mandou o automóvel ser a moeda corrente da primeira fase do capitalismo do século 20. Afinal, foi o primeiro supérfluo (transporte público serve pra quê?) a ser vendido como indispensável pelo mercado e, como tal, logo virou sinônimo de status. Aos poucos, a garagem se tornava cômodo indispensável em qualquer residência a partir dos anos 40. Mas com o declínio da economia americana nos anos 60, o carro logo foi o primeiro indispensável a ser descartado pela classe média americana, deixando milhares de garagens livres pela América. Logo, toda casa tinha uma sala de ensaio perfeita pra qualquer tipo de banda, recurso que até hoje é seguido, como um sacramento.
Seu uso efetivo começou com a invasão britânica. Depois que os Beatles oficializaram o rock como gênero inglês, dando oportunidade para vários jovens conterrâneos arqueólogos do blues americano entrar no mercado fazendo seu próprio som, o próximo passo desta ascensão seria entrar nos Estados Unidos. Quem vencesse na América, vencia no mundo e foram os Beatles quem deram o primeiro passo. Deram sorte: os Estados Unidos ainda não haviam se recuperado do assassinato de seu querido presidente JFK quando os cabeludos ingleses desceram por lá. Com a Beatlemania, todas as bandas de rhythm’n’blues inglesas migraram para os EUA, na vã tentativa do sucesso. Todas elas emplacaram ao menos um hit e constituiriam, mais tarde, a primeira geração da era de ouro do rock.
Como reza a terceira lei de Newton, a chegada dos ingleses provocou um verdadeiro chamado às guitarras na terra do Tio Sam. Foi quando adolescentes por todo país montaram suas bandinhas e foram em direção às paradas. A grande maioria trombou no mínimo sucesso e uma parte deste grupo emplacou dois ou três hits no resto do país. Tocando guitarras sem muita técnica e com muito barulho, bandas como Sonics, Troggs, Kingsmen, Seeds, Music Machine e outras semidesconhecidas cruzaram os Estados Unidos sobre um único hit, transformando suas apresentações em festas explosivas de energia juvenil. Mais que as apresentações inglesas, os grupos americanos tinham uma identidade imediata com o público e cada vez mais gente se empolgava a pegar uma guitarra. Para estes, uma geração bastarda da cruza da surf music com o rock inglês, “Louie, Louie” era o hino.
Foi exatamente no meio dos anos 60 que várias diferentes correntes do mercado musical se encontravam: a Beatlemania se esgotava e os próprios Beatles procuravam outros artifícios sonoros, a música folk saía imediatamente de moda - primeiro pela debandada de Bob Dylan para o rock, depois pelo surgimento do então novíssimo folk rock -, a técnica passaria a ser quesito indispensável em qualquer músico, a psicodelia transformava a cabeça de jovens londrinos. A quantidade de grupos que nasceram neste período é incomensurável e os nomes (Chocolate Watch Band, Jefferson Airplane, Captain Beefheart & His Magic Band, Grateful Dead, Doors, Frank Zappa & the Mothers of Invention, 13th Floor Elevators) ajudavam todas a confundir-se entre si.
Três bandas distinguiam-se radicalmente das outras. A primeira delas, o Velvet Underground, era fruto do encontro de Lou Reed com John Cale, dois jovens estudantes de vanguarda dispostos a quebrar convenções impensáveis de seus meios. Reed vinha da literatura, cantava a marginália de forma suntuosa e fazia bicos em gravadoras, compondo músicas bobas de amor para grupos de doo-wop. O galês Cale vinha da música contemporânea, músico prodígio desde menino, foi para Nova York estudar com os grandes mestres da nova música, como John Cage, LaMonte Young e Cornelius Cardew e queria flertar com o lado feio da música pop. O casamento dos dois gênios era explosivo e completado pela microfonia indomável de Sterling Morrison e pelo metrônomo unissex chamado Moe Tucker dava origem a um turbilhão sonoro sem precedentes até então. Barulho, melodia e vanguarda são dispostos lado a lado e tratados da mesma forma. Apadrinhados por Andy Warhol, tiveram que gravar um álbum com a cantora húngara Nico, que nunca realmente pertenceu ao grupo. The Velvet Underground and Nico, de 1967 (o disco da banana), é obra fundamental em qualquer estante de amantes de música popular moderna. O disco seguinte, White Light/ White Heat, trazia um turbilhão de ruído nunca ouvido antes em disco, um amálgama de ritmo e barulho que destruía o chão a cada pisada. Os dezoito minutos de dois acordes que arrastavam-se por Sister Ray, populados por uma orgia de travestis e marinheiros entupidos de heroína, falam por todo disco.
A saída de Cale levou o barulho para longe do Velvet. Com Cale, o lado erudito contemporâneo de destruição da música era posto de lado em favor do artesanato pop praticado por Lou Reed, que assegurou o repertório do grupo por outros dois discos e anos. John Cale saiu do Velvet a contragosto e resolveu despejar aquela raiva em sua carreira solo - o que incluía seu trabalho como produtor. Foi ele quem comandou as primeiras sessões em estúdio do segundo grupo desta leva de desajustados. Os Stooges de Iggy Pop aceitaram ser produzidos por um músico metido da cidade grande, que logo os impôs às limitações do estúdio - onde uma grande banda de palco pode soar meia-boca. As gravações soam cansadas, mas qualquer pirata do grupo naquele 1969 (“Outro ano sem nada pra fazer”, resmungava Pop) traduzia o dínamo autodestrutivo que era o grupo.
No palco, ninguém pegava os Stooges. Suas apresentações levavam o conceito de caos aos limites do possível, com o grupo colidindo de frente com a platéia, através do som e da fúria. Cuspindo as vísceras artísticas pra fora, os Stooges eram um atentado aos bons modos que o rock de sua época acabava parecendo, seja a piromania de Jimi Hendrix ou o quebra-quebra do The Who. Ao lado dos Stooges, na mesma cidade, um terceiro grupo completava a linha de frente do proto-punk. Erguendo a bandeira da desordem como nova religião, o MC5 (o quinteto da Motor City) era o lado mau dos Rolling Stones, o que Jagger e cia. diziam ser. Citando referências tão diferentes quanto Nat King Cole e Sun Ra, o grupo encabeçava o movimento Panteras Brancas, do ativista político de araque John Sinclair, um hippie que preferia disfarçar suas verdadeiras intenções numa bandeira política. Mas para o MC5 não havia disfarce: ele explicava com todas as letras seu intuito - sexo, drogas, rock’n’roll e nenhum outro motivo, o prazer e a diversão ficavam em segundo plano em relação ao excesso. “Irmãos e irmãs!”, berrava o cabeludo Rob Tyner como pastor de uma nova religião. Wayne Kramer e Fred “Sonic” Smith (que mais tarde casou com Patti Smith) grunhiam em resposta, ao mesmo tempo que Dennis Thompson e Michael Davis empurravam o ritmo com bateria e baixo. Um disco gravado ao vivo - Kick Out the Jams - é o melhor registro da truculência do ROCK (com maiúsculas) do grupo.
Com os anos 70, todos pasteurizaram seu som - o MC5 lembrava um grupo hippie tocando clássicos do rockabilly em Back to the USA, os Stooges pareciam escondidos embaixo dos escombros graças à mixagem de David Bowie em Raw Power e o Velvet Underground gravou uma coleção de hits radiofônicos batizada de Loaded. Os três grupos logo acabariam, mas seus estilhaços podem ser sentidos em duas outras bandas - os New York Dolls e os Modern Lovers.
As duas eram opostas como dia e noite. Os Dolls vinham de diversas bandas de Nova York que só queriam farra. Vestidos de mulher, David Johansen, os guitarristas Johnny Thunders e Syl Sylvian, o lendário baixista Arthur Kane e o baterista Billy Murcia, tomaram o subúrbio da capital do mundo de assalto, com uma resposta suja e grotesca ao glam rock inglês. “Tanto em tão pouco tempo” era um dos lemas do grupo, que batizou o primeiro disco. A sonoridade era mais rock’n’roll do que propriamente punk rock - o groove da banda saía do mesmo lugar do dos Rolling Stones -, mas a altura do som e a presença de palco do grupo antecipavam o gênero que começava a borbulhar. E o picareta inglês Malcolm McLaren assistia de perto - tanto que pegou os Dolls como empresário e os tentou transformar numa banda comunista (?), toda de vermelho, com uma bandeira da União Soviética ao fundo.
Ficando com a metade tímida dos primórdios do punk, os Modern Lovers de Johnathan Richman eram o extremo oposto dos Dolls. Com sua Stratocaster e sua insegurança ao encarar o palco, Richman só podia cantar canções como aquelas - “I’m Straight” (“Eu Sou Careta”), “Pablo Picasso” (“Pablo Picasso nunca foi chamado de cuzão, como você”) e “Hospital” (narrando a espera da namorada num pós-operatório). Com Jerry Harrison (futuro Talking Heads) e Chris (futuro Cars) na primeira e clássica formação de seu grupo, Richman transformava canções sem graça em hinos de rebeldia adolescente, culminando com o maior de todos, o clássico estradeiro “Roadrunner” (e seu refrão “Radio on!”). As primeiras demos, produzidas por John Cale, só apareceram como disco quase um ano de terem sido gravadas.
Logo depois, o sonar da música pop cairia em Nova York. Depois que o glam rock esvaziou-se em Londres e os hippies da Califórnia estagnaram nos montes de dinheiro dados por gravadoras, foi a vez de um grupo de moleques descobrir um velho bar de motoqueiros que funcionaria como bunker de toda uma geração. O CBGB’s funcionou de base para bandas como diferentes como o Television, os Ramones, o grupo de Patti Smith e embriões de bandas que mais tarde seriam o Blondie, o B-52’s, o Talking Heads, os Cars, os Heartbreakers, os Voivods. Aquele impulso garagesco tomou conta de uma cena que passou a despertar interesse primeiro da imprensa, depois das gravadoras. Com seus discos debaixo do braço, eles levaram seus shows para o outro lado do Atlântico e para a costa oposta dos Estados Unidos, fazendo as cenas londrina e angelena brotarem. O punk havia nascido.
Artigo que eu escrevi pro Diário antes do Timão despachar o Galo pra segundo lugar do Brasileiro de 98.
ÊÔ!
Segunda e quinta-feira é dia de tirá-la para sair, todo mundo sabe. Desfilar com ela pelas ruas da cidade, fuzilado por olhares gordos e invejosos, é um prazer. No dia do jogo o exército põe a farda de fora. No dia de seguinte, a vitória é comemorada e homenageada por toda nação. Qualquer camisa que ostente o brasão do Corinthians provoca reações radicais - mas nunca indiferentes - ao olhar de quem possa vê-la.
Mas hoje é fim de campeonato, é glória da final. Hoje todo corintiano transborda de alegria e celebra sua religião na cara de quem ele quiser - do vizinho, do chefe, do melhor amigo, de qualquer pessoa na rua. Hoje aquela nação que sua frio colado no rádio para gritar o mais desesperado e apaixonado grito de gol do Brasil pode passear feliz e provocativa antes mesmo do jogo começar, quebrando uma espécie de tradição há tantas finais (os anos 90 só perdem em números de títulos para os 50, que assistiram a consolidação do Timão na elite do futebol brasileiro) - algo que já tornou-se uma tradição.
Então em todo domingo de final de campeonato, todo corintiano sorri antes da hora. É bom lembrar que estou falando de um sorriso raro, sempre disposto a ceder à ansiedade, à tristeza, às desgraças. Todo corintiano sabe que, logo depois do gol que desempata a partida, a bola pode acertar as próprias redes em questão de minutos. Um sentimento doído, nos dando a impressão de estar no começo de uma montanha russa tão íngreme que não sabemos se o carrinho vai descer derrapando as rodas nos trilhos e se não vai haver mais nada além do chão, lá embaixo. Nestes ensolarados (mesmo que chuvosos) domingos de final, a felicidade une todos os corintianos.
Quem entra em campo hoje à tarde? Ora, o time do Corinthians. Você quer saber quem são os jogadores? Alguns são as estrelas do time, outros jogadores são quase anônimos que podem virar heróis ao menor deslize, figuraças, goleiros eficazes e exigentes, atletas briguentos, técnicos se descabelando, aquele garoto revelação que saiu das categorias e agora dá trabalho para os zagueiros adversários. Qualquer time do Corinthians é assim - seja com Sócrates, Gilmar, Neto, Zé Maria, Ronaldo, Casão, Wladimir, Rivelino, Baltazar, Luizinho ou com um bando de moleques sob o comando de um treinador chamado às pressas. Seja com quem for, o Corinthians é sempre o mesmo time.
Hoje é final de campeonato... Antes de encarar o céu claro da manhã, pegue sua camiseta e vista-a com orgulho., beije-a no brasão e saia para as ruas. Os porcos, os pó-de-arroz, os peixes, bugrinos e pontepratanos todos vão olhar tortos para você. Num misto de raiva, nojo e inveja, os torcedores dos principais times de São Paulo desdenham a bela bandeira que você estampou no corpo. Mas você passa de longe, nem percebe a presença, nem sorri nem responde a provocação. Mas ao encontrar qualquer Fiel na rua, o sorriso desponta ou o olhar que diz “Timão êô!”.
Que dizer? Timão êô!
Entrevista que a Clarah fez comigo. Onde ela publicou, eu não sei...
Clarah - O que te fez começar a escrever sobre música?
Matias - Acho que gostar de música. acho não, com certeza. sempre gostei tanto de discos quanto de revistas sobre música. mania mesmo, como música - muita gente tem disso. uns viram músicos e continuam lendo sobre música. outros começam a escrever e continuam ouvindo discos. as pessoas acham que existe esse papo de frustração, mas eu acho que isso é uma via de duas mãos. tem muito músico que é crítico frustrado (oferece pra maioria um texto, pra vc ver) eu não. eu sou satisfeito com o que eu escolhi fazer. me dá prazer, é isso que me faz continuar. quando encher o saco, eu paro. como qq coisa na vida.
Clarah - e quais as bandas que tu ouviu e que te fizeram querer escrever?
Matias - O meu "primeiro disco" que eu costumo citar (os primeiros mesmo foram os infantis, historinhas Disney, essas coisas) é uma coletânea da Som Livre chamada New Wave Mamão com Açúcar. Eu devia ter uns dez anos. Parece absurdo quando a gente escreve, mas é mais ou menos com essa idade que a maioria das pessoas que se envolve com música faz sua opção. A tal coletânea era um disco remix com "Middle of the Road", dos Pretenders;"Just Can't Get Enough", do Depeche Mode, "Beautiful World", do Devo; "Let's Go Crazy", do Prince; "I Want a New Drug", do Huey Lewis and the News; uma música da Divine, outra do Wham! (é, aquela), Wang Chung... Uma mistureba do cacete. Depois veio o Michael Jackson, com o "Thriller", que me levou imediatamente pro "Off the Wall" e pro "Pipes of Peace", do Paul McCartney. Daí pra ir pros Beatles foi um pulo. Na mesma época tinha a explosão do rock nacional dos 80, mas aquilo era meio rotina, meio dia-a-dia. Tu lembra, né? Ligava a novela, tinha um personagem rock, tinha a Blitz em tudo que é canto, Armação Ilimitada, Video Show (que capturava toda a "essência" do rock brasileiro daquela época em outro contexto), Geração 80, FMTV, Chacrinha, Cometa Loucura, Raul Gil... Pra onde vc virava tinha rock anos 80. E eu nasci em Brasília, que tinha naquela geração Legião a primeira oportunidade de mostrar a cara do povo de lá pro resto do Brasil, então foi meio uma causa abraçada não só pelos adolescentes. Então o rock nacional era muito presente, não precisava caçar informação sobre isso, isso tava no ar. Mas a música estrangeira não, os poucos que falavam eram superficiais e o rádio não fazia mais do que tocar e mandar aquelas notinhas bobas sobre um fato curioso na vida da banda. Então, pra conhecer melhor, tinha que ler. E justamente nessa época, a SomTrês começou a lançar aquelas biografias poster (boa parte era escrita pelo Paulo Ricardo, tu sabia?) e eu comecei a colecionar como se fosse disco. Sabbath, Jethro Tull, Deep Purple, Roxy Music, Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd, Jimi Hendrix, Janis Joplin, David Bowie, Genesis... Eu levei uma enxurrada de rock clássico antes dos 13 anos, acho. Engoli aquilo tudo, discografias inteiras, puro nerdismo - na mesma época, os outros sabiam tudo sobre brinquedos estrangeiros, futebol, televisão. eu sacava de música. até aí, normal. o rock funcionou como a minha apresentação à vida real, sexo, drogas e violência tudo ao mesmo tempo com uma sonzeira (ou não) de pano de fundo. "O drama humano", se eu quisesse me meter a besta. mas aí começou a sair uma série sobre Beatles absurda, todos os discos comentados num poster. foi fatal. medindo o estrago dos Beatles na música pop - e usando basicamente música, eu comecei a querer entender isso melhor. como? conhecendo. então eu realmente transformei a música no meu hobby mais sério e passei a ler tudo sobre música. até que chegou uma hora (com uns 15, 16 anos) que eu vi que eu tinha que dividir aquilo tudo com alguém, gostava de contar histórias, mas essas histórias nunca são legais de ser ouvidas (a não ser pelos protagonistas), mas são boas de ser lidas. por isso escrevo
Clarah - eu ainda estou chocada com a informação do paulo ricardo. acho que isso explica muita coisa.
Matias - Paulo Ricardo manda bem pra caralho. O cara saca o sistema, conhece as artimanhas e sabe o que quer. Se fodeu sozinho por causa de pó, mas aos poucos voltou e o cara é novamente uma unanimidade - até na classe média que domina a mídia e finge desprezá-lo. Muita gente gosta de escrever pra aparecer, os exemplos estão na TV - parte do povo que lida com música na TV começou escrevendo. Mas eu acho viagem, dar a cara pra bater assim, só pra aparecer.
Clarah - E eu nem sabia que ele escrevia. Onde foi que tu começou a escrever?
Matias - ah, um monte de fanzine instintivo, revistas que a molecada fazia pro próprio meio, sem aspirações. jornal pra tirar sarro da cara dos professores (lembre-se que era o auge do Planeta Diário), esse tipo de coisa. Aí tu contava uma história porraloca do Jimi Hendrix e botava um recorte do Wood (do Angeli) fumando um baseado. Aquela coisa de comer pelas beiradas, tirando um barato. Até a faculdade foi assim - mais pros amigos que pro resto do povo.
Clarah - Tu já teve banda?
Matias - já, mas sempre no âmbito pessoal. sabe banda que a molecada junta pra tocar enquanto faz churrasco? tinha uma que chamava Eu Não Matei Joana D'Arc porque era a única música que a gente tocava inteiro. se for ver, até hoje eu faço música, mas é um troço meu, só eu e a minha mulher conhecemos. eu não quero que ninguém ouça, isso é só pra mim... tipo um esporte...
Clarah - e que tipo de música é?
Matias - nah, sou eu tocando violão e efeitos de gravação. mas é bobagem, eu gravo e apago. é como fumar um, tomar uma birita. não tem porque tu deixar isso registrado, só é bom enquanto dura e só pra vc.
Clarah - E o trabalho sujo, daonde veio e para onde vai? quer dizer, já foi, mas tu pretende ter alguma coisa parecida de novo?
Matias - o trabalho sujo começou porque o diário pirata (que era o suplemento adolescento do diário do povo, onde eu comecei mesmo) acabou e o jornal queria alguma coisa pra por no lugar. pedi a conta e ofereci a coluna por fora, pra ficar em casa. mas depois voltei pra redação e comecei a fazer ele lá de dentro. até que me transferiram pro correio e eu resolvi matar o sujo. sei lá, se deixasse na mão de outra pessoa ou botasse ele no correio ia ser e a vida tem fases, né? tem hora pra acabar com as coisa, o lance é saber quando. então, acabei. mas já tô com uma coluna de música (o tal Termômetro, que aparece no COL), que às vezes aparece na página do jornal, que eu acho ruim pacas. o que eu tô querendo fazer é uma homepage só pro caderno c (que é o caderno de cultura do jornal, que eu tô editando) funcionar como uma revista eletrônica, diária. é uma continuação do sujo, mas num âmbito maior
Clarah - tu nunca pensou em ter um programa em outro meio? tv eu já vi que não, mas e rádio? e tem algum programa que preste por aí? porque porto alegre tá foda.
Matias - Eu já faço um programa de black music aqui em campinas, mas mais pra diversão do que a sério. claro que eu quero ter um programa, o texto só complementa a música, não substitui. mas, sei lá, cada coisa em seu tempo. tô com tanta coisa pra fazer hoje que eu não sei como é que eu tô dando conta - na boa. e continuo pegando mais coisa ainda... é foda... então eu deixo isso pra depois, quando rolar...
Se tem programa bom aí? eu acho que não. rádio no Brasil é uma bosta, ou tocam essas músicas de merda ou entram uns babacas rock'n'roll da idade da pedra (que queimam o gênero no mercado) ou - gente pior - uns neopunksalternativos que simplesmente odeiam tudo que não é eles. rádio rock no Brasil é isso - essa merda. webrádio ainda é um troço distante, ouvir som no computador ainda é uma merda, então não dá nem pra comentar direito. eu não ouço rádio, de jeito nenhum. evito. conheço as músicas da moda pelos outros.
Clarah - Hora das listas
Matias - bom, todas essas listas, com eu te falei antes, são temporárias, são os nome que me vêm à cabeça agora. Nenhuma é definitivo. Eu acho que não existe isso.
Clarah - 10 bandas brasileiras nos anos 90
Matias - mundo livre s/a, planet hemp, nação zumbi, butchers orchestra, virna lisi, grenade, racionais, graforréia, jupiter maçã e little quail
Clarah - 10 melhores bandas do milênio
beatles, james brown, velvet underground, nirvana, husker du, public enemy, pink floyd, sabbath, new order, kraftwerk e doors.foram 11, eu sei.
Clarah - 10 melhores discos do milênio
Matias - abbey road, pet sounds, it takes a nation of millions to hold us back, a caixa de singles da fase london dos stones, pink flag, zen arcade, one nation under a groove, fear of music e o segundo dos mutantes.
Clarah - 10 bandas que não precisavam existir
isso é bobagem, né? o problema da cultura pop é que ela se retroalimenta, então o que era considerado uma merda no passado pode ser reconhecido como foda no futuro - veja o Abba, o Burt Bacharach, Roberto Carlos, os Monkees... o kid abelha depois da saída do leoni (apesar de inofensivo), o pato fu fase diluída (a atual), o jeff lynne (q cagou e sentou em cima da volta dos Beatles), o cara que produziu o imagination do brian wilson, todas essas bandas novas e merdas de big rock da inglaterra (verve, travis, coldplay, stereophonics, oasis...), o hole, o jota quest, a maioria dessas bandas que se dizem políticas (tira o RATM por causa do Tom Morello - e só), as bandas da jovem guarda que deram ao brasil os principais executivos da indústria fonográfica brasileira, o eduardo não-sei-o-quê que produz e arranja os discos do roberto carlos hoje.. e vai
Clarah - ah, mas antes, fala um pouco dessa invasão de gente boa na bizz.
Matias - hm, prefiro não falar pelos outros. mas acho que, na verdade, é uma geração de gente boa que pensa na música mais como cultura do que como comércio, mais como uma forma de mexer com a cabeça das pessoas do que encher o bolso. isso é reflexo do trabalho de um monte de gente legal que agora tá começando a ser notado pelo público. e assim, por uns 10%, a maioria do público não tá nem aí.
Clarah - claro, a maoria do público não tá nem ai pra música, que dirá pra matérias sobre música. tu tem algum zine legal pra indicar, fora os já conhecidos?
Matias - tenho sim, a maioria online, pq não tenho mais tempo nem de ler zine (nem revista, nem nada, praticamente :)). Acho legal o velotrol (www.velotrol.com.br), o Xico Sá tem um site que chama O Carapuceiro (www.carapuceiro.com.br), o Cucaracha, do Matias Maxx, do Rio (www.cucaracha.com.br), o clássico senhor F (www.senhorf.com), o manguetronic (que eu não lembro o link), o Salon (que agora é moda www.salon.com), aquele NO (www.no.com.br)...
Clarah - quais foram as 3 entrevistas mais legais que tu fez?
Matias - o mike watt foi o primeiro gringo que eu entrevistei e foi do caralho. eu conhecia minutemen há um tempo e o cara era meio um mito pra mim. e ele ficou super feliz pq alguém conhecia minutemen no brasil...o ira kaplan, do yo la tengo, é um cara legal de entrevistar, já falei com ele umas quatro vezes, super gente boa. ...o fred zero quatro, idem. como o marcelo d2. e no meio da entrevista vira papo, não tem jeito. o chuck d foi uma entrevista foda, o bicho é um gênio. o bob pollard do guided by voices tb foi bem legal... o dj shadow... o samuel rosa é legal entrevistar... o humberto gessinger... o lobão... tem gente que só deveria dar entrevistas...hehehe
Clarah - TU JÁ ENTREVISTOU O MIKE WATT? WAHHH QUANDO ISSO?
Matias - em 94. mas o melhor dessa coisa de entrevista é perceber que todo mundo é igual, não tem essa de mito, de deus, de ser melhor que, etc... todo mundo é igual...
Clarah - Outra que eu tenho certeza que legal foi a do duprat. aquilo foi muuuito legal. velho louco.
Matias - porra, a do duprat é outro patamar, nem compara. eu pensei que tu tava falando em rotina, mas, sei lá, o duprat foi como entrevistar o brian wilson. coisa que eu tô tentando, aliás.
Clarah - uma coisa que eu sempre tive curiosidade: existem groupies de jornalistas?
Matias - infelizmente não. o q mais rola é moleque perguntando "como é q é fazer o q vc faz?", etc... rola groupie por outros papos, vem mulher usando txt como motivo pra chegar, né? mas aí não é groupie, é papo furado, paquera. groupie quer dar pro cara só pq ele é do rock. não existe isso nessa (se bem q em jornalismo - como um todo - é meio rotina, mas no âmbito do alpinismo profissional)... pensando melhor, ainda bem.
Clarah - ah, eu sei, imagina. minha única entrevista ao vivo foi com o chico science e O GRAVADOR ESTRAGOU. eu quis morrer.
Matias - ah, normal. vc precisa mostrar pros outros? o q vale é a experiência q tu tira pra ti e ponto. com o chico eu tenho entrevistas ótimas, o chico era um amigo, conheci ele um pouco antes de ir pra sony, junto com o paulo andré (do abril pro rock), os dois abrindo pra uma banda dance de merda aqui em campinas. eu entrevistei o renato russo tb, ficou muito legal. tá gravada e eu nunca publiquei isso.
Clarah - E o que mais tu tem de inédito? só pra deixar as pessoa com vontade.
Matias - os outtakes... inédito, por enquanto, só a entrevista com o jairzinho, que eu publico agora na terça, hehehehe...
Clarah - ok, matcheas. acho que era isso. não vou puxar o teu saco mais. tu sabe que eu sou fã, né? tu é um dos meus ígdolos, no bom sentido.
Matias - não tenha ídolos: inspire-se nas pessoas para colher experiências alheias, mas vc não pode viver a vida dos outros. vive a sua q é mais legal - e vc se diverte mais.
Clarah - ei, meus ídolos são sempre próximos. o galera, por exemplo.
Matias - mas não tenhais ídolos. foi isso que deus mandou dizer pro moisés q, burro, pensou q ele tivesse falando de religião...
Clarah - meu deus, você é um conhecedor da bíblia?
Matias - nah, eu tô tirando onda.
Clarah - o que tu acha da mtv? tem volta esse excesso de forma e falta cada vez maior de conteúdo?
A mtv é um rádio. tão besta quanto. e como qualquer outra coisa no mundo, 90% é merda.
Clarah - tu acha que tem alguma coisa que presta na tv a cabo {tipo o new music que eu acho muito bom)?
sim, tem um monte de coisa boa. o gnt e o multishow são bons canais, a fox tem umas séries legais, o sony tb. mas tv é foda, corrói o cérebro, deixa a gente preguiçoso, é bom evitar. eu sou a favor da tv-ambiente, tu liga a tv na globonews e deixa ela falando sozinha na sala. se tiver alguma coisa boa, tu vai ver. mas não precisa ficar ali, viciado...
Clarah - ah, mais uma lista: 5 bandas que nao podiam ter acabado
joy division, television, os headhunters, o picassos falsos e o fall.
Clarah - e como anda a cena alternativa brasileira? tem bastante bandas legais que nào chegam aos mortais?
Matias - 2000 é um ano perdido, tá mais parado que o de costume. era o ano pra separar o joio do trigo do meio, tirar quem quer ser pop e deixar quem quer ser alternativo. porque quem quer ser pop toma espaço dos alternativos enquanto não vira pop, né? mas parece que deu uma esfriada, tem disco saindo, mas não tem a empolgação que tinha no ano passado ou em 93/94, por exemplo. então o ano 2000 não é um bom ano para se entrar na cena, se vc vem de fora.
Clarah - onde tu acha que o rock brasileiro, se é que ele existe, vai parar?
sei lá. rock no brasil às vezes é adereço, às vezes é pra valer... não sei mesmo. todo mundo no brasil fez ou faz rock. caetano fez rock (podres poderes), gil fez (punk da periferia), chico (jorge maravilha), jorge ben (flertou com a jovem guarda), tim maia (tocou batera com roberto e erasmo no sputinks)... só os malas que endeusam a bossa nova (e os eruditos e pseudos) repudiam rock como formato. o resto, todo mundo usa. então rock no brasil não é um gênero, é um sabor, um tempero. todo mundo usa, uns mais, outros menos. se vc contar a história do rock no brasil, sem querer vai contar 70% da história da mpb no último cinqüentênio.
